Laura García del Castaño nasceu em Córdoba, el 17 de octubre de 1979. Publicou, entre outros: El Grito ( edição da autora, 2004), La vida en que sueñas (Recovecos, 2012), El animal no domesticado (Pan comido, 2014), El sueño de Sara Singer (Llanto de mudo, 2014 e Caleta Oliva 2017) Los demonios del mar (Ediciones del Dock, 2015).
Publica no blog: www.lapalabrasembrada.blogspot.com, onde li ela pela primeira fez faz vários felizes anos e onde vcs podem ler esse poema, titulado Tenemos dificultad con las palabras ( 4 de fevereiro de 2016)
Temos dificuldade com as palavras
acordamos sem conexão
acordamos sem fome
pensa-se numa senha
põem-se coisas insuficientes ao resguardo
coloca-se fumê nos vidros de um carro
etiqueta-se um morto em domingo
o taxista repete que deus obra de formas misteriosas
carregamos o tórax dum bezerro
desmontamos a cruz para um evangelista
jugamos o congénere pelo volumen da fala
pela cor das suas prendas
procuramos um parente online
procuramos um parente entre os quartos dum geriátrico
aguardamos o dia chegar
aguardamos trocar nossa plumagem
o taxista repete que deus obra de formas misteriosas
há mortos nas oficinas clandestinas
mortos pedindo cascas de nossa música
mortos apenas chamada de emergência
homens entubados vagam de um mundo a outro mundo
homens apertam gatilhos na televisão
Granizo quebra os cristais
o taxista repete que deus obra de formas misteriosas
línguas áridas masturbam sua ferida
línguas áridas esperam sua traducção
povoados dormidos esperam baixo seu vulcão desperto
dispositivos deslumbram as bestas
dispositivos apagam e armazenam a existência
relógios resistem a falha do tempo
unhas rachadas arranham o trivial
o taxista repete que deus obra de formas misteriosas
a gente se abre frente a câmera
a gente se abre pela raiz
a gente se abre passagem entre os gelos duma memória frigorífica
para tocar um rosto editado no movimento
um rostro de vidro temperado
Para tocar un rostro iluminado falsamente
o taxista repete que deus obra de formas misteriosas
um adolescente respira do seu popper
uma mulher respira do seu tabaco eletrónico
um idoso respira duma sopa sem hálito
pinta-se uma habitação cor pêssego
troca-se o wallpaper e o som da tua doença
troca-se o gato o papagaio e o familiar
e o taxista repete que deus obra de formas misteriosas
varre-se a calvície dumas flores
põem-se em quarentena as germinações do coração
ativam-se os antivírus da noite
passa-se de nível
empresta-se uma vida para passar de nível
compra-se um nível com o cartão de crédito
o amor confecciona sua teia de aranha noturna
uma vitrine exibe seus belos acessórios
sangra o óxido da nossa pequena gaiola
o planeta regente esfriasse
algo cresce na prisão do sonho
fechamos sessão
descemos do táxi
recebemos o alta, estamos online,
estamos de viagem
estamos carregados no sistema
estamos em silêncio
temos dificuldade com as palavras
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