jueves, 13 de mayo de 2021

Tradução livre do poema Tenemos dificultad con las palabras, da poeta Laura García del Castaño ( Córdoba, Argentina)


Laura García del Castaño nasceu em Córdoba, el 17 de octubre de 1979. Publicou, entre outros: El Grito ( edição da autora, 2004), La vida en que sueñas (Recovecos, 2012), El animal no domesticado (Pan comido, 2014), El sueño de Sara Singer (Llanto de mudo, 2014 e Caleta Oliva 2017) Los demonios del mar (Ediciones del Dock, 2015). 

Publica no blog: www.lapalabrasembrada.blogspot.com, onde li ela pela primeira fez faz vários felizes anos e onde vcs podem ler esse poema, titulado Tenemos dificultad con las palabras ( 4 de fevereiro de 2016)


Temos dificuldade com as palavras


acordamos sem conexão

acordamos sem fome

pensa-se numa senha

põem-se coisas insuficientes ao resguardo

coloca-se fumê nos vidros de um carro

etiqueta-se um morto em domingo

o taxista repete que deus obra de formas misteriosas

carregamos o tórax dum bezerro

desmontamos a cruz para um evangelista

jugamos o congénere pelo volumen da fala

pela cor das suas prendas

procuramos um parente online

procuramos um parente entre os quartos dum geriátrico 

aguardamos o dia chegar


aguardamos trocar nossa plumagem 

o taxista repete que deus obra de formas misteriosas

há mortos nas oficinas clandestinas

mortos pedindo cascas de nossa música

mortos apenas chamada de emergência

homens entubados vagam de um mundo a outro mundo

homens apertam gatilhos na televisão

Granizo quebra os cristais

o taxista repete que deus obra de formas misteriosas

línguas áridas masturbam sua ferida

línguas áridas esperam sua traducção

povoados dormidos esperam baixo seu vulcão desperto

dispositivos deslumbram as bestas

dispositivos apagam e armazenam a existência

relógios resistem a falha do tempo

unhas rachadas arranham o trivial 

o taxista repete que deus obra de formas misteriosas

a gente se abre frente a câmera

a gente se abre pela raiz

a gente se abre passagem entre os gelos duma memória frigorífica

para tocar um rosto editado no movimento

um rostro de vidro temperado

Para tocar un rostro iluminado falsamente

o taxista repete que deus obra de formas misteriosas

um adolescente respira do seu popper

uma mulher respira do seu tabaco eletrónico

um idoso respira duma sopa sem hálito

pinta-se uma habitação cor pêssego

troca-se o wallpaper e o som da tua doença

troca-se o gato o papagaio e o familiar

e o taxista repete que deus obra de formas misteriosas

varre-se a calvície dumas flores 


põem-se em quarentena as germinações do coração

ativam-se os antivírus da noite

passa-se de nível

empresta-se uma vida para passar de nível

compra-se um nível com o cartão de crédito

o amor confecciona sua teia de aranha noturna

uma vitrine exibe seus belos acessórios

sangra o óxido da nossa pequena gaiola

o planeta regente esfriasse

algo cresce na prisão do sonho

fechamos sessão

descemos do táxi

recebemos o alta, estamos online,

estamos de viagem

estamos carregados no sistema

estamos em silêncio


temos dificuldade com as palavras


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