acordo com o miado e o ronronar da aquaria. antes que os olhos abro os ouvidos ao carro das vendas, aquela música evangélica que nunca consegui entender.
depois há silêncio. um pássaro pensa é a minha vez e se põe a gritar acima duma carambola
viva na 'aventura incessante' esse domingo veinticuatro de setembro de dois mil e veintitres
as vizinhas cantam: ‘um dia o macaco /casou co’ a borboleta/ e assim nasceu / o borbolecaco/ que confusão!’
‘solo sobreviven los inventores’
sinto saudades da chuva quase tanto quanto do sur, e dos sandwiches de miga da padaria da avenida pueyrredón
um cachorro chamado domingo, submerso na lama do parque sarmiento
pula e late desde o fundo da memória
paisagens aleatórias nas nuvens do pensamento
mas
ninguém vai chegar assim, do nada, e bater na porta hoje
aqui, nessa terra chamada presente, neste bairro e todo o conjunto chamado ceará
não há cachorros elamaçados nem chimarrão com amigas pelas varandas
mas
há gatos e chimarrão, brilhantes telhados laranjas e há ainda saúde
também dá pra ver minhas unhas -esmalte vermelho descascando violentamente-
procuram encravar o fantasma escorregadio da beleza
a caneta empurra o barquinho de papel
'sei que a vida/ é o mar/ e não reconhece/ tipos de embarcações/ sinto de que estou feito/ ao naufragar'
aqui, neste conjunto,
na porra deste mar dos naufrágios
dando manotazos de ahogada
nadando de cachorrinho
34 anos
os olhos accesos,
uma servidora.
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