martes, 18 de junio de 2024

minha vida nos tubos de sobrevivência, naufrágio ou roberto bolaño, franco rivero e minha vida no tubo do liquidificador

acordo com o miado e o ronronar da aquaria. antes que os olhos abro os ouvidos ao carro das vendas, aquela música evangélica que nunca consegui entender. 

depois há silêncio. um pássaro pensa é a minha vez e se põe a gritar acima duma carambola

viva na 'aventura incessante'  esse domingo veinticuatro de setembro de dois mil e veintitres 

as vizinhas cantam: ‘um dia o macaco /casou co’ a borboleta/ e assim nasceu / o borbolecaco/ que confusão!’ 

‘solo sobreviven los inventores’ 

sinto saudades da chuva quase tanto quanto do sur, e dos sandwiches de miga da padaria da avenida pueyrredón 

um cachorro chamado domingo, submerso na lama do parque sarmiento 

pula e late desde o fundo da memória

paisagens aleatórias nas nuvens do pensamento 

mas 

ninguém vai chegar assim, do nada, e bater na porta hoje

aqui, nessa terra chamada presente, neste bairro e todo o conjunto chamado ceará

não há cachorros elamaçados nem chimarrão com amigas pelas varandas

mas 

há gatos e chimarrão, brilhantes telhados laranjas e há ainda saúde

também dá pra ver minhas unhas -esmalte vermelho descascando violentamente-

procuram encravar o fantasma escorregadio da beleza

a caneta empurra o barquinho de papel

'sei que a vida/ é o mar/ e não reconhece/ tipos de embarcações/ sinto de que estou feito/ ao naufragar' 

aqui, neste conjunto, 

na porra deste mar dos naufrágios

dando manotazos de ahogada

nadando de cachorrinho

34 anos

os olhos accesos,

uma servidora.


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