(Li esse poema em: Disminuya la velocidad / Franco Rivero. - 1a ed. - Villa Mercedes : Ed. Deacá, 2018.)
o campo entrou em mim com o tabaco
pelo nariz
depois pelas mãos
A vista
folhas com veias
nunca tinha visto
as tocava
como quem não vê
ou não acredita
no que vê
É tabaco
disse mamãe
era a primeira vez
que lembro
chegar em casa da vó
quando eu vi ela
tinha um cigarro
na boca
e esse cheiro
foi como
dizer oi pra uma planta
como se uma planta falasse oi pra mim
anos depois ainda criança
toquei folhas de tabaco secas
a cor era escura
as veias
estavam intactas
Quando fomos morar
na casa da vó
ela me ensinou
armar cigarros
As folha mais pequena
são para fazer chripa
me dizia
As colocamos depois
numa folha mais grande
Cê tem que enrolar ajeitadinho
Repetia pra mim toda vez
depois mostrava pra mim
como é que gruda
na borda da folha
pro cigarro
não desmanchar
também me ensinou fumar
gostava de andar no campo
a pé
Seguindo os bicho
procurando ninhos
e uma vez
encontrei um morcego
no tronco duma árvore
tinha um buraco
e ele estava aí
como escondido
enfiei a mão
toquei
levantei
acariciei suas asas
foi como acariciar tabaco
asas como folhas com veias
folhas que são quase teia
até na cor assemelhavam
me apaixonei pelo morcego
visitava-o diariamente
e algumas vezes levava ele pra vó
pra mostrar pra ela as suas asas
o parecido que havia
que coisa né
ela falava não tinha coragem
de tocá-lo
ontem em caa catí
alguém puxou uns cigarros
como os da vó
depois da janta
o cheiro a cor as veias
voltavam a mim
a lagoa era como um espírito
de fundo
teve violão sanfona
e cajón peruano
como sempre meu chamigo fabian fumava
conosco
olhava-o e pensava não
falta nada nele pra ele ser
daqui
ali voltei ver mãos escuras que
se parecem com aquelas folhas
de teia quase
com veias como caminhos
me apaixono por aquelas mãos
o dia que eu ame
ele as terá assim
Foto: Lau Careaga
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