domingo, 20 de diciembre de 2020

Tradução livre do poema Petỹ , de Franco Rivero

 
















Petỹ - Franco Rivero

(Li esse poema em: Disminuya la velocidad / Franco Rivero. - 1a ed. - Villa Mercedes : Ed. Deacá, 2018.)

o campo entrou em mim com o tabaco

pelo nariz

depois pelas mãos

A vista



folhas com veias

nunca tinha visto

as tocava

como quem não vê 

ou não acredita 

no que vê


É tabaco 

disse mamãe

era a primeira vez 

que lembro

chegar em casa da vó

quando eu vi ela

 tinha um cigarro

 na boca

 e esse cheiro


foi como

dizer oi pra uma planta 

como se uma planta falasse oi pra mim


 anos depois ainda criança

 toquei folhas de tabaco secas 


a cor era escura 

as veias 

estavam intactas 


Quando fomos morar 

na casa da vó 

ela me ensinou 

armar cigarros 

As folha mais pequena

são para fazer chripa 

me dizia


As colocamos depois

numa folha mais grande 

Cê tem que enrolar ajeitadinho 

Repetia pra mim toda vez 

depois mostrava pra mim 

como é que gruda 

na borda da folha

pro cigarro 

não desmanchar


também me ensinou fumar

 

gostava de andar no campo 

a pé 

Seguindo os bicho

procurando ninhos 

e uma vez 

encontrei um morcego

no tronco duma árvore

 tinha um buraco 

e ele estava aí 

como escondido 

enfiei a mão

toquei  

levantei

acariciei suas asas

foi como acariciar tabaco 

asas como folhas com veias 

folhas que são quase teia

até na cor assemelhavam 


 me apaixonei pelo morcego

 visitava-o diariamente 

e algumas vezes levava ele pra vó

 pra mostrar pra ela as suas asas

o parecido que havia 

que coisa né

ela falava não tinha coragem

 de tocá-lo


 ontem em caa catí 

alguém puxou uns cigarros 

como os da vó 

depois da janta

 o cheiro a cor as veias

 voltavam a mim 

a lagoa era como um espírito

 de fundo 


teve violão sanfona 

 e cajón peruano 

como sempre meu chamigo fabian fumava 

conosco 

olhava-o e pensava não

 falta nada nele pra ele ser 

daqui 


ali voltei ver mãos escuras que

se parecem com aquelas folhas 

de teia quase 

com veias como caminhos 

me apaixono por aquelas mãos

o dia que eu ame 

ele as terá assim


Foto: Lau Careaga


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